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Fale Direito:Tocando o dedo na ferida

Na aula de hoje, um jovem aluno do curso de direito, que pertence aos quadros da Policia Militar da Bahia, socializou que já trabalhou em diversos municípios do Estado, mas que via em Jacobina, no campo da violência, uma peculiaridade em relação aos demais; afirmou que fica espantado com os altos índices de violência contra a mulher, crianças e o número de acidentes no trânsito.
Cotidianamente o meu discurso é bem positivo em relação a nossa cidade. Valorizo sobremaneira as nossas riquezas naturais e a grandeza do coração dos seus moradores, é claro que toda regra tem exceção. Vejo em Jacobina um grande potencial ainda inexplorado, o turismo deste Piemonte da Chapada Diamantina. Terminei a aula com isso na minha cabeça, senti vontade de analisar porque temos as tais peculiaridades explicitadas pelo aluno. Hora de tocar o dedo na ferida.
Inicialmente, vivemos numa cultura social conservadora. Há na cidade um apelo valorativo exagerado pelos ditos nomes de família. Há sempre uma necessidade de se referenciar a família e estas por sua vez tem sempre um chefe – lógico que um homem. Olha aí a cultura patriarcal imperiosa, onde prepondera nas relações de poder o poderio masculino.
Ora, este macho-chefe não pode, nem deve ser contrariado. Isso ocorrendo, há que se subjugar os que a eles estão submetidos, ou seja, mulheres, crianças e ainda de quebra os homossexuais.
Será que não é por isso meu caro aluno-policial que a violência contra mulheres e crianças seja tão perceptível, cruel e haja uma homofobia explicita? E este macho todo poderoso não consegue perceber que neste jogo de poder ele próprio, chefe patriarcal, é vitima do sistema cultural que domina e lhe aprisiona. Lembro da obrigação de ter que ser bem sucedido, o provedor, aquele que não pode ser sensível, imposições que se expressam na frase que ouvimos desde pequeno que “homem que é homem não chora”. Que loucura! homens, mulheres e crianças perdidos nesta sociedade sem prumo.
E o trânsito? O trânsito não existe à medida que o outro motorista ou pedestre também não possuem existência. É um trânsito que não enxergamos a presença do outro, porque o outro não importa. É impressionante isso. Já percebeu que quando em via publica você esta dando ré no seu carro, dificilmente os outros carros param para que você possa terminar a manobra? E as motos então, são muito mais perigosas e fatais na ocorrência de um acidente e seus motociclistas desafiam o perigo a cada instante. Cortesia e gentileza são sentimentos raros nas ruas da cidade. Mas como esperar esta nobreza se ela não existe na universidade, em órgãos públicos, no comercio e em tantos outros ambientes? As ruas apenas refletem a educação que recebemos. Se não há educação, na perspectiva que esta vem de berço, as ruas serão apenas o espaço do CAOS.
Uma critica se torna mais relevante quando seu interlocutor oferece uma sugestão coerente. Mas que sugestão fazer, se quebraram os modelos? Se não temos mais standards para nos mirarmos? A nova tecnologia, fomentadora de uma sociedade de massas e consumista fizeram com que o farol, que servia para guiar os barcos em alto mar, se tornassem absoletos. Apagaram a luz do farol.
Ascendam depressa porque o barco provavelmente se chocará entre as pedras. Neste finalzinho da escrita é como se sentisse Cazuza sussurrar no meu ouvido “meus heróis morreram de overdose, meus inimigos estão no poder – IDEOLOGIA EU QUERO UMA PRA VIVER”

Ricardo Sampaio é advogado com Mestrado em Direito pela Unicap e Professor do Curso de Direito da Uneb-Jacobina

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